Muda

– Você, meu prisioneiro, que percorro o corpo, que deixo-o sensível, e sufoco. O espinho que afunda na carne, progressivamente, a cada inspiração. Sou a pele que não lhe cabe mais. É inevitável. Terá de me suportar.

Estou vulnerável. Sinto-a me asfixiando com você caminhando pelo meu corpo. Me prende. É insuportável. Assim como as outras, te amei, mas não te suporto mais e preciso te deixar. Chegou a hora de nos despedirmos.

Antes do sol nascer, das folhas, bebo o orvalho, fruto da atmosfera. Purifico minhas entranhas com o suave líquido. Banhado em sua dádiva eu me contorço. Faço força. Rompo o repouso para me desprender de você, minha velha amante, que não respeito mais.

De você, com dificuldade, deslizo. Estendo os braços. Livro-me dessas cordas. 

Meus apêndices, membranosos, antes presos, expandem. São belas, minhas asas. Afastando-me de você com a ajuda delas, conquistarei o céu.

– Obrigado, minha última e mais dolorida, ecdise.



Ramon Arzerra, 26 de setembro de 2018