A cólera que nos arruina

Alguns vão morrer, vão morrer, lamento, é a vida.

Jair Bolsonaro, 27/03/2020

A morte vive e, é com crises como esta, que a humanidade torna a se lembrar que o suporte à vida e a sua preservação, pela solidariedade, foi a base da ascensão humana.

A caça, a coleta, o ensinamento da manipulação do fogo. O vencimento da inércia para a sobrevivência em ambientes hostis e em meio a condições adversas foi conquistado pelo esforço coletivo e o tamanho dessa crise, que talvez venha a se tornar a maior da nossa geração, terá sua grandeza aferida com o tempo e as decisões tomadas hoje nos impactarão nos anos vindouros.

A natureza dessa emergência provoca medidas de curto prazo, algumas arriscadas, imprudentes em épocas normais, mas necessárias diante do mal maior. A presteza das pessoas e governantes com decisões ágeis e assertivas devem levar em consideração as consequências a longo prazo onde um mundo com os sobreviventes ascenderá mudado daquele antes da crise. A política, a cultura, o sistema de saúde e a economia, foco central das decisões nas últimas décadas, sendo as duas últimas as primeiras impactadas, estão sendo moldadas para o futuro agora quando escolhemos entre as alternativas para vencer a ameaça.

Decantarão durante essa crise, a fraqueza de líderes sem repertório, incapazes de agir, pagando o preço quando a ameaça for superada. Alguns, sustentados somente na cólera cega de seus apoiadores, já estão sucumbindo ao encarar esse fato extraordinário, que em outras crises menores, não pode ser combatida com mudanças de foco e desinformação.

O enfrentamento dessa realidade pelas amarras ideológicos, sem levar em consideração a complexidade do problema, a aplicação de medidas visando agradar primordialmente uma faixa da sociedade sem contar as consequências negativas nos arruina, sempre, a cada nova busca por soluções baseadas nos nossos preconceitos.

A empatia – não a observar nem mesmo neste momento crítico é lamentável – é elemento essencial na composição de caráter de qualquer humano, principalmente aqueles que tem o poder de impactar a vida de tantos outros. A falta é doença auto-imune. Devemos nos concentrar em fortalecer nosso superego, hoje frágil, esquecido, e introjetar valores para o bem. É hora de suportar a dor e adiar a saciedade.