me chamo Ramon Arzerra.


Com cores, volumes e palavras, crio pinturas, esculturas e literaturas.

Alguns dos projetos que concebi ou que eu tive o prazer de estar envolvido podem ser vistos aqui. Abaixo, em algumas palavras, você pode conhecer mais sobre minha visão e pretensões.


O Caminho da Criação

Esta explanação sintetiza, em algum grau, aquilo que sou como artista. Concede uma percepção que abrange quase todo o conhecimento que adquiri de minhas experiências artísticas desde a primeira vez que manuseei um lápis e o conjunto de objetos que crio hoje, dentre ilustração, design, pintura, escrita e outros. Meu estudo e grande tempo utilizado na observação de artrópodes. A análise de desenhos, pinturas, esculturas, filmes, desenhos animados e cada forma de contar uma história. Minhas virtudes, minhas limitações, minhas frustrações. Meu esforço, dedicação e falhas na profissão. Ainda, neste instante, muito do que sou e meu caminho são nítidos.

Brincar

De maneira espontânea, enciclopédias ilustradas e documentários na televisão, sobre o território natural e humano, de insetos a arqueologia, os habitantes do microcosmo do quintal de casa, alguns brinquedos preferidos, como dinossauros e aviões, e a Ana Maria Braga ensinando em seu programa como fazer massa de biscuit foram algumas das primeiras coisas que despertaram meu interesse, e viriam a traçar minha base cultural e a inspirar minhas primeiras criações. Embora estas referências sejam, a principio, bem diferentes, é possível tecer alguns pontos que as conectam, como a apresentação de um mundo fantástico nas enciclopédias e documentários que me fez começar a procurar dentro dos domínios de minha casa aquelas formas de vida, logo já estava registrando em um caderno as fantásticas descobertas, criava fichas técnicas detalhadas sobre como viviam, suas dimensões e o que comiam. Brincava de desenhar e desenhava meus brinquedos, diariamente, traçava insetos, dinossauros e aviões, mas quando assisti a Ana Maria ensinando a fazer massa de biscuit minha cabeça explodiu, pois agora eu podia modelar meus próprios brinquedos, e com a ajuda da Dona Celina, minha mãe, podia fazer a tal massa ficar perfeita.

Mistérios

Os mantídeos, o universo infinito e o espelho. A medida que crescia, minha biblioteca de interesses expandia, cada qual carregando maravilhosas descobertas. Depois dos dinossauros, passei a me interessar pelos insetos, logo, estava fascinado pelos Mantídeos, também conhecidos como Louva-a-Deus. Pareciam pequenos alienígenas com seus braços e cabeça triangular. Imaginava se poderiam ter inteligência e cultura evoluídas. Procurava esses insetos em qualquer pedaço de jardim. Desenhava e registrava o que eles comiam, o que faziam, media seu tamanho e a cada eliminação de exoesqueleto, a chamada ecdise. Viajava e imaginava se não eram mesmo seres alienígenas esquecidos na Terra. Pensar em seus mundos me prendia a atenção. Questionava a todo instante e a cada café da manhã para minha espectadora e mãe sobre o universo, o infinito, ou como poderia simplesmente ser finito. Imaginava que dentro desse universo infinito, um outro garoto, igual a mim, sentado, tomando seu café da manhã, poderia estar fazendo a mesma pergunta e que outros garotos, infinitos garotos, faziam o mesmo. Foi nessa época, de grande reflexão existencial, que passei a não me reconhecer na frente do espelho. Imaginava ser apenas alguém a utilizar aquele corpo, impressão que tenho e que me incomoda até a vida adulta.

Palavras

Chegando na adolescência, a música e as letras entram em minha base cultural, já bastante sólida. Meu interesse pela música a torna força motora de quase todas as minhas criações. Encontrei nela algumas similaridades com aqueles pensamentos e reflexões que tinha do mundo. Sentia a necessidade de entender o total desinteresse que alguns colegas tinham com determinados estilos que me identificava. Tentava compreender pessoas próximas, assim como o fazia com meus insetos. Buscava o propósito. Sentia necessidade de retratar com mais precisão o que queria e o que os meios gráficos acabava me limitando, pois o desenho deixa mais facilmente vaga a interpretação ao espectador. O plano, sem significado, das palavras rivaliza com o do desenho, que é autêntico. As palavras são forçadas, como instrumento do aprendizado, da doutrinação do saber, a ter um significado. O olhar e a intuição perdem espaço para o sistema linguistico que servem a comunicação humana. Mas o uso de letras formando palavras, criando pequenos textos, foi agregador, e apesar dos erros pelo não domínio desse código, consegui expor precisamente algumas de minhas intenções.

Despertar

Acredito que a necessidade de pensar para escrever me ajudou na arte de desenhar e a percepção de algo, se não uma qualidade inata, é possível treinando o olhar. Num aniversário, ao observar uma caixa de pastéis oleosos e folhas sobre uma mesa, não resisti e me sentei para desenhar, nascia ali uma certeza. Fiz cerca de dez desenhos repletos de significados até então adormecidos em mim. Foi a primeira vez que distingui a brincadeira descompromissada com algo próximo a arte, não apenas luz e cores, era intenção, composição e formas. O domínio primitivo da poesia literária de certa forma me ajudara a desembaraçar essa veia poética visual. Desenhar passou a ser o pensar o que não se pode enxergar, a representar um mundo que não se pode ver com os olhos. Passei a buscar a expressão e os símbolos, com um senso estético mais refinado, movimento e fluidez das figuras.

Arte africana e mexicana

Esculturas africanas, trazidas por minha irmã de uma viagem a Africa do Sul, me impressionaram bastante. Esculpidas em madeira, tinham olhos grandes, lábios destacados e o volume e aparência rígidas, firmes e linhas simplificadas. Imediatamente me senti atraído. Mesma impressão tive, quando essa mesma irmã, de uma viagem ao México, trouxe algumas esculturas típicas, com cores incríveis, algumas pintadas e outras decoradas com miçangas. Me agradava os padrões e a variedade de cores utilizadas naquelas peças. Fez sentido minha atração ser tão natural, afinal, como se fossem uma síntese do que são os insetos. O volume bem definido africano e os padrões cromáticos mexicanos, os dois, movimento pela forma e cor, respectivamente, parecem traduzir visualmente uma parte do que são esses seres.

Composição

Conforme amadurecia, meu repertório se radicalizava. Meu humor pode ser claramente interpretado observando o grau de decomposição das figuras que desenho e o descompromisso com a fidelidade das formas com os objetos reais. Diversos elementos os quais mais uso já se mostravam em alguns dos meus primeiros trabalhos. A combinação de formas geométricas, marcante em todo o meu processo criativo, associadas a técnicas características a arte cubista, são o sedimento que norteia o meu trabalho. As linhas, minha assinatura, expressam precisamente o que sou, delimitantes, elas contam um pouco da busca que travo pela organização e da minha obsessão pelo encaixe entre os elementos que procuro retratar. Amplamente exploradas nas imagens que crio, algumas contínuas, algumas pertencentes a múltiplas figuras, as linhas sempre convergem para os objetos que desejo enfatizar. E quando ingresso no curso de desenho industrial, logo após uma tentativa frustrante ao cursar biologia, apesar de ficar empolgado pela descoberta de um colega que compartilhava do mesmo fascínio pelos mantídeos, minhas ações criativas, sempre intuitivas, começam a ser racionalizadas e compreendidas conforme sou apresentado as ferramentas de design.

Influência

Apesar da grande influencia de artistas cubistas e surrealistas, os quais complementaram a construção de minha poética, menosprezei e não procurei espelhar meu traço ao da arte recente produzida em metrópoles internacionais. As capitais geradoras de cultura operam como modelos que acabam determinando os padrões estéticos e artísticos vigentes, mas sempre tive a idéia que esses padrões, apesar de importantes, eram nocivos para a evolução da minha arte e abafavam e desfiguravam meus interesses, meus vernáculos, tão importantes a criação de uma estética notável e duradoura. Mas, mesmo tendo uma produção que busca se desgarrar dos moldes estabelecidos, isso não necessariamente impediu minha assimilação de algumas características desses polos produtores.

Mercado

Por que desenhar imagens, de novo e de novo várias vezes? As adequações comerciais sempre me incomodaram, de repente os “produtos” tinham perdido o sentido de ser e não pontuavam o objetivo da minha procura. Sofro com a falta de controle que os diversos níveis da reprodução da arte exige. Essa tentativa de controle aliada a adequação ao mercado é enganosa, nascendo assim peças que carecem de importância e sem destaque significativo para a evolução artística. As necessidades financeiras impõem grande pressão sobre as tomadas de decisão, dessa forma, as criações começaram a surgir com a finalidade de se tornar palatáveis ao meu consumidor. Desvinculada da realidade, essa arte é desesperada, produzida para ser compreendida de imediato dentro de um contexto histórico artificial, lhe faltando a devida profundidade. A inevitável consequência se impõe, a linha traçada divide o plano, o rio do tempo bifurcará logo a frente e uma nova escolha se fará obrigatória.